Crítica: 3096 Dias (2013, de Sherry Hormann)


Dirigido por Sherry Hormann, o drama alemão ‘3096 Dias’ é uma adaptação do livro autobiográfico – de mesmo nome – da austríaca Natascha Kampusch. Para aqueles não familiarizados com a história de Natascha, trata-se de um dos mais brutais casos de sequestro já reportados pela mídia: aos 10 anos, a garota foi capturada por um homem que a manteve em cativeiro por mais de oito anos – ou 3096 dias, precisamente. 


Apesar de produzido inteiramente em inglês e com atores não necessariamente austríacos, a trama se passa em um distrito pertencente à Viena, capital da Áustria. Logo no início, é possível conhecer um pouco da infância de Natascha (Antonia Campbell-Hughes): filha de pais separados, a garota se dava muito bem com o pai. Todavia, era alvo de comentários desconfortáveis vindos de sua mãe por estar acima do peso, ainda que tão nova. Os comentários, que tanto a frustravam, acabaram por ocasionar uma discussão que fez com que Natascha saísse de casa sozinha – e não com a mãe, como de costume - para ir para a escola. 

No meio do caminho, a criança foi capturada por um homem desconhecido e jogada dentro de uma van branca. Mal sabia Natascha que esse homem, a quem mais tarde viria a chamar de Wolfgang (Thure Lindhardt), seria, por 3096 dias, o seu pior pesadelo.


Os acontecimentos pós-sequestro dão início a um dos mais extremos limites da degradação de um ser humanos. Kampusch foi jogada em uma espécie de porão (ou cubículo) de difícil acesso, previamente planejado e construído pela mente e mãos doentias de Wolfgang. Sem janelas, sem cama, privada de condições básicas de higiene e alimentação, Natascha passou o resto de sua infância e o início de sua adolescência sem saber o que é a luz do sol. Nas bem conduzidas cenas do porão, podemos assistir a criança bem nutrida se tornar uma adolescente esquálida e sem vida: o modo em que o drama é dirigido, inclusive com relação à posição das câmeras, nos faz sofrer a solidão e as agonias da personagem. Com o passar do tempo, as privações evoluíram para os abusos, tanto sexuais quanto, principalmente, psicológicos.


Não se sabe os motivos que levaram Wolfgang a cometer tamanha atrocidade, afinal, para sua mãe – que o visitava frequentemente e jamais imaginou a existência do porão - ele era uma pessoa normal, apesar de extremamente solitária. O filme em si não nos dá respostas, mas talvez pistas. A maior delas era de que Wolfgang era um sadista incapaz de controlar sua mente ou viver uma vida normal: desempregado, o homem chegou a instalar uma espécie de interfone para se comunicar com Natascha no porão sem precisar de descer até lá, entretanto, utilizava-o para poder dizer repetidamente, várias vezes por dia, a mensagem que acabara por perpetuar e ecoar na cabeça da jovem: “obedeça-me”. 

Além disso, a única cena em que o personagem sai de casa para realizar uma atividade comum entre adultos solteiros, ir para a boate, o faz ter uma espécie de ataque de pânico e voltar diretamente para a casa, de onde não devia ter saído. Outra possível pista, além das citadas acima, é a de que Wolfgang tinha problemas com sua sexualidade: raspava a cabeça da garota e a obrigava a utilizar cuecas e andar sem blusa, como que um garoto. Apenas quando ouviu de sua mãe que na família havia dúvidas de que ele fosse gay, começou a abusar sexualmente de Natascha, como que uma maneira de justificar-se a si mesmo.



Indiscutivelmente perturbador, ‘3096 Dias’ é uma excelente obra cinematográfica. Deixando de lado sua relação e fidelidade à obra original, o livro, a produção é bem dirigida e oferece ao espectador aquilo que promete: retratar um acontecimento real em sua mais completa frieza e crueldade. 

Nota: 9/10


Título original: 3096 Tage 

Direção: Sherry Hormann 

Elenco: Antonia Campbell-Hughes, Thure Lindhardt, Amelia Pidgeon 

Sinopse: baseado na história real de Natascha Kampusch, que foi raptada aos dez anos de idade e mantida em cativeiro entre os anos de 1998 e 2006 passando por um período de isolamento completo do mundo exterior, onde sofreu abusos físicos e psicológicos. 

Trailer: 



Mariana Portela

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